quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Por que as pessoas escrevem?


"Por que as pessoas escrevem? Já me fiz tantas vezes esta pergunta que hoje posso respondê-la com a maior facilidade. Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver. Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda obra de arte.

Só o artista sabe que o mundo é uma criação subjetiva, que é preciso escolher, selecionar. A obra é a concretização, a encarnação do seu mundo interior. Ele espera impor sua visão pessoal, partilhá-la com os outros. Se não atinge esta última finalidade, o verdadeiro artista persiste assim mesmo. Os poucos momentos de comunhão com o mundo valem esse sofrimento, pois finalmente esse mundo foi criado para os outros como um legado, como um dom destinado a eles.

Também escrevemos para aprofundar o nosso conhecimento de vida. Para atrair, encantar e consolar. Escrevemos para acalentar nossos amantes. Para degustar em dobro a vida: no momento preciso e retrospectivamente, na sua lembrança. Escrevemos, como Proust, para tornar as coisas eternas e para nos convencermos de que elas o são. Para podermos transcender nossa vida e alcançarmos o que existe além dela. Escrevemos para aprender a falar com os outros, para testemunhar nossa viagem ao labirinto. Para abrir, expandir nosso mundo quando nos sentimos sufocados, oprimidos ou abandonados. Escrevemos como os pássaros cantam, como os primitivos dançam seus rituais. Se você não respira quando escreve, não grita, não canta, então não escreva porque sua literatura será inútil. Quando não escrevo, meu universo se reduz; sinto-me numa prisão. Perco minha chama, minhas cores. Escrever deve ser uma necessidade, como o mar precisa das tempestades – é a isto que eu chamo de respirar."


- Anais Nin

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"Onde a maldade era fria e intensa como um banho de gelo. Como se visse alguém beber água e descobrisse que tinha sede, sede profunda e velha. Talvez fosse apenas falta de vida: estava vivendo menos do que podia e imaginava que sua sede pedia inundações. Talvez apenas alguns goles..."

Clarice Lispector , in Perto do Coração Selvagem.


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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Corujices

" Mãe, se tu fosse feia, seria menos estressada. Por que toda mulher bonita é assim?"

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Desabafo

Eu sou um fracasso total em corresponder às expectativas dos outros.
Não sou a mãe que todos esperam de mim. Eu me equilibro numa corda bamba para exercer simultameneamente e ilustremente os papéis de profissional, mãe e mulher. Se sou ótima profissional, sou péssima mãe, se sou ótima mãe, sou péssima profissional. Mulher? Não sei aonde ela está.
Não sou o tipo de mulher que os homens querem para casar. Sou dominadora, controladora, independente, dona de mim. Hoje, por exemplo tive que escutar que eu gosto de ser homem e preciso fingir para agradá-los porque ninguém faz algo sem interesse.
E eu não sei fingir (nem sempre)...
Mentira. Eu finjo todos os dias ser uma pessoa que eu não sou para poder ser quem eu sou.
Cara liberdade.
Para ser livre, estabeleci regras para a boa convivência na sociedade.  Preciso engolir a seco, respirar fundo, me fazer de surda.

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domingo, 1 de novembro de 2009

Ordinary World

"A vida de todos os dias não me interessa. Procuro apenas os momentos elevados. Estou de acordo com os surrealistas quanto à procura do maravilhoso.
Quero ser uma escritora que lembre aos outros que estes momentos existem. Quero provar que existe um espaço infinito, um sentido infinito para as coisas, uma dimensão infinita.
Mas não estou naquilo que se pode chamar de estado de graça. Tenho dias de iluminação e febre. Há dias em que a música para na minha cabeça. Então remendo meias, limpo árvores, apanho frutos, dou brilho ao mobiliário, mas enquanto faço isto, sinto que não vivo."


- Anais Nin
As coisas ordinárias são insignificantes para mim. É embrutecer a cada dia que se torna igual aos demais, porque tudo que é igual , é inerte. Em todos os lugares, ninguém consegue ouvir a minha voz, embora eu tanto fale. Sinto necessidade de tirar o véu do meu mundo a alguém capaz de entender o que não se pode entender. Mas, muitos ao meu lado estão cada vez mais distantes. Seria uma insistência inútil procurar um sentido ínfimo para cada momento, como se fosse tempo perdido o que se gasta com a pormenores da utilidade. Uma expectativa insustentável. Espero algo surpreendente que acalme a minha sede de êxtase, mas cada fim de dia me confina num silêncio despótico e ensurdecedor.

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sábado, 31 de outubro de 2009

Quantas vezes eu assassinei o amor

"O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nïn estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas.
Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela."


- Fabrício Carpinejar

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fato

Quando a última esperança de encontro se dissipou, me vi perdida numa realidade crua e amarga. Eu estava ali, com as mãos vazias e coração apertado, rosto molhado, com a sensação de ter sido violada. Nada iria mudar este fato. Tanto, tanto tempo e o que se perde? O que se ganha? Irreversível. Sem chances. Naquele momento eu soube que a perda da inocência faria com que a minha vulnerabilidade no amor acabara. Eu nunca mais acreditaria e a vida seria cheia de dias após dias.



"O amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das traições . Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho."

Anais Nin

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Loneliness

"Quando a sociedade humana cumpre o dever na sua verdadeira função as pessoas que a formam intensificam cada vez mais a própria liberdade individual e a integridade pessoal. E quanto mais cada indivíduo desenvolve e descobre as fontes secretas de sua própria personalidade incomunicável , mas ele pode contribuir para a vida do todo. A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem e o ar para os pulmões e a comida para o corpo. A comunidade, que procura invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, está condenando a si mesma à morte por asfixia espiritual.

A solidão é tão necessária , tanto para a sociedade como para o indivíduo que quando a sociedade falha em prover a solidão suficiente para desenvolver a vida interior das pessoas que a compõem, elas se rebelam e procuram a falsa solidão. A falsa solidão é quando o indivíduo, ao qual foi negado o direito de tornar-se uma pessoa , vinga-se da sociedade transformando sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho e infinitamente pobre. A pobreza da falsa solidão vem da ilusão que prentende, ao enfeitar-se com coisas que nunca podem ser possuídas, distinguir o eu do individuo da massa de outros homens. A verdadeira solidão é sem um eu.

Por isso é rica em silêncio e em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes do bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica. E porque nada encontra em seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela. Mas cada coisa que ela toca infecciona-se com seu próprio nada e se destrói. A verdadeira solidão limpa a alma, abre-se completamente para os quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta a todos os homens.

Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele e então cumprir seu verdadeiro destino a pôr-se ao serviço de uma pessoa."

Thomas Merton

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

No line on the horizon

Abra essa porta. Fecha essa porta. A liberdade é azul, mas a solidão é cinza. O mundo está de mal comigo e eu tampouco, quero fazer as pazes. Minhas pernas não conseguem andar. Meus braços não conseguem abraçar. O mundo exige tanto de mim e eu quero apenas a liberdade, enquanto muitos olham a chuva, o sol e as estrelas pela grade.

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domingo, 25 de outubro de 2009

Pigmaleão e Galathéa

Esculpe-me.
Não, desculpe-me...
Por não ser o anjo de marfim no teu altar,
Por não ser um bloco de mármore pronto para você talhar
Esculpe-me como Pigmaleão em sua paixão por Galatéia.

Desculpe-me,
Não sou uma La Pietá para te carregar em meus braços
Não sou uma tela em branco para você pintar
Exerça sua criatividade em outro lugar.

Não esculpa-me assim
Desculpe-me.
Prefiro ser assim,
Se eu não fosse eu, você gostaria de mim?

Apenas veja a beleza do fogo a crepitar
Chegas perto demais das chamas, por isso sentes calor
Não brinque demais com fogo.

Eu tenho meu estranho jeito de ser
Só sei ser se posso falar, se consigo escrever
Não estou aqui para realizar teus desejos
Sou teu próprio desejo.Isso te incomoda?

Sou pretensiosa?
Não importa. Não ligo a mínima.
Sou muito mais que um signo.
Se nem consegues ver meus pontos cardeais, quem dirá os meu sinais!
Sou o vento do norte, brava e forte.

Não meu amor, não sou um tratado
eu não sei definir, apenas sentir.
Eu sou real, virtual, surreal.
Sou muito mais que um ideal, sem busca de perfeição

Desculpe-me por ser tão real que para você sou irreal,
Desculpe-me
Se esculpe-me com uma irreal satisfação de suas fantasias.
Desculpe-me

Desculpe-me por não sentir culpa.

Eu sou desumana de tão humana.

Não sou um holograma.

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